Quem tem menos de 13 anos em Ilha Solteira, interior
de São Paulo, sabe que é proibido ficar
na rua depois das 20h30. E a restrição
não é só para os mais jovens.
É o toque de recolher, a decisão judicial
que abriu a polêmica: afinal, quem deve impor
limites aos adolescentes: os pais ou a Justiça?
Miguel Ângelo Micas, delegado titular de
Ilha Solteira: Quantos anos você tem?
Jovem: Catorze.
Delegado: Catorze? Então, já passou
do seu horário, está certo? Você
vai sair daqui e vai direto para casa.
Jovem: Sim, senhor.
Fechou o tempo para os adolescentes em Ilha Solteira
e Itapura, cidades do interior de São Paulo,
na divisa com Mato Grosso do Sul. Desde segunda-feira
passada, menores de 18 anos têm hora certa
para voltar para casa.
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Até 13 anos, o horário é 20h30.
De 14 anos a 15 anos, 22h. E de 16 a 18 anos, o
limite é 23h. Quem furar o toque de recolher
pode ser levado para o Conselho Tutelar, de onde
só sairá com os pais. Não é
difícil adivinhar quem gostou da novidade:
os pais.
”Eu dou nota dez para esse procedimento”,
diz um senhor.
“Peço licença para citar uma
passagem da bíblia, de Eclesiastes, que diz
o seguinte: ‘Um cavalo indômito torna-se
intratável. A criança entregue a si
mesma torna-se temerária”, lê
Fernando Antonio de Lima, juiz da infância
e da juventude de Ilha Solteira.
Ele é o pai da ideia, um juiz de 30 anos
de idade.
“A intenção nossa foi colocar
horários para as crianças e adolescentes
dormirem, para que pudessem ter um bom rendimento
escolar no dia seguinte”, justifica o juiz.
O Fantástico acompanhou a primeira noite
do toque de recolher em Ilha Solteira. O alvo principal:
jovens em situações consideradas de
risco.
“Olha, você está perto de alguém
que está consumindo bebida alcoólica.
Não pode”, recomenda o delegado a um
jovem.
A iniciativa segue o exemplo de Fernandópolis,
cidade paulista que adota o toque de recolher há
quatro anos. Lá, segundo a polícia,
o número de crimes envolvendo menores caiu
60% com a medida.
“A sociedade nos cobra providências
diante de prostituição infantil, juvenil,
uso de drogas e álcool”, afirma Evandro
Pelarin, juiz da infância e da juventude de
Fernandópolis.
Em Ilha Solteira, logo na primeira blitz, um jovem
infrator, que estava em liberdade assistida, foi
flagrado com bebida alcoólica. “Você
vai ter que acompanhar a gente até a delegacia,
porque esse caso tem que ser registrado”,
diz o delegado.
Mas e os jovens que não estão fazendo
nada de errado na rua?
“Nós temos que pagar pelo que eles
fazem?”, pergunta uma menina.
Nem nas lan houses a garotada pode ficar. O juiz
proibiu a entrada de menores de 16 anos, mesmo acompanhados
dos pais.
“Esse juiz aí não está
com nada. Eu falo na cara dele ainda: ‘Que
lei você inventou aí, meu amigo?’”,
diz Ítalo Ferreira, 17 anos.
Ítalo e os amigos cumpriram a promessa,
cara a cara com o juiz Fernando.
“Final de semana eu tinha que sair, curtir
um pouco, para aliviar a cabeça. Domingo
poderia prevalecer. Mas sexta e sábado, deveria
ser liberado”, opina Ítalo.
“Ficar até altas horas da noite, o
que vocês ganham? Fala uma coisa”, pergunta
o juiz.
“Na verdade, não é questão
de ganhar, é questão de lazer. Para
quem estuda muito, complica”, responde Ítalo.
“O senhor acha que cabe a um juiz de direito
decidir, por exemplo, o horário em que os
pais devem ou não deixar os filhos na rua?”,
pergunta a repórter Fabiana Godoy.
“Eu imagino que sim. É uma obrigação
da autoridade pública interferir nestas situações”,
responde o juiz.
Para um especialista em direito da criança
e do adolescente, porém, a decisão
fere liberdades constitucionais.
“Liberdade de ir e vir, liberdade de educar,
liberdade de poder escolher entre o que é
certo e o que é errado”, opina Ricardo
Cabezon, presidente da comissão de direitos
da criança e do adolescente da OAB de São
Paulo.
O motorista Humberto Mendes, pai de uma adolescente
de 17 anos de Itapura, não vê excesso.
“Esses adolescentes, quer dizer, ‘aborrecentes’,
não adianta você falar com eles”,
diz.
No meio da conversa aparece Kawana, a filha de
Humberto.
“Eu costumo chegar em casa 8h, 9h da manhã”,
confessa a menina.
“Quando eu tiver filhos vou deixar liberar
geral!”, promete Kawana.
“Logo, logo já conhece um filho na
adolescência, conhece as drogas, conhece o
álcool”, rebate o pai.
“As coisas não são bem assim,
pai. Se você fosse jovem, mas você já
é tiozinho”, responde a filha.
São 23h15. Enquanto a polícia está
na rua principal da cidade fazendo uma blitz, a
gente encontrou onde a garotada veio se reunir.
A balada agora é na porta da casa dos amigos.
“Nós vamos ficar até umas 3h,
4h da manhã”, diz Alex da Rocha, 17
anos.
E a fiscalização?
“Ah, quero ver pegar nós!”,
desafia André Luiz Pereira, 17 anos.
“Viver na democracia é também
oferecer às pessoas a oportunidade de elas
entenderem o peso dos seus atos. Se o jovem quis
ficar acordado à noite e ele passar o outro
dia com sono, ele tem que entender que isso não
é bom para ele”, argumenta Cabezon.
Enquanto o toque de recolher estiver valendo, o
jeito é esperar pela maioridade.
Fonte: Fantástico.globo.com
Autor:
pereirabarretosp.com
Data: 28/04